Sporting e Benfica em uma luta a dois “Depois da derrota do FC Porto em Arouca”

Depois da derrota (2-3) em Arouca dificilmente o FC Porto voltará a entrar na luta pelo título. É verdade que ainda temos um terço do campeonato por disputar.

Afirmo isto porque analisando a nossa liga percebemos que os três grandes estão claramente à frente de todos os outros. Podem perder pontos, mas a probabilidade de isso acontecer é muito reduzida.

Também é uma realidade que, no passado, houve clubes que recuperaram de distâncias pontuais consideráveis: Rui Vitória, Bruno Lage e Sérgio Conceição já foram campeões depois de recuperarem de uma desvantagem de sete pontos. O que torna esta época distinta e mais complexa para o FC Porto é o facto de ter de recuperar de uma distância pontual de sete pontos (com o Sporting com menos um jogo) para dois clubes e não só para um. Se recuperar sete pontos é difícil, fazê-lo a dois será ainda mais complicado.

Desta forma, percebemos na perfeição o desconforto de Sérgio Conceição após a derrota com o Arouca. Naquele momento, o treinador portista percebeu que a possibilidade de atingir o grande objetivo da época ficou muito mais reduzida.

Tendo em conta o contexto e o momento que o clube azul e branco está a atravessar, o foco deverá ser jogo a jogo, para tentar, pelo menos, alcançar o segundo lugar e garantir presença no play-off da Champions, caso contrário perderá 30 % dos proveitos operacionais, o que tornará a já difícil situação financeira ainda mais complicada.

Sporting a voar
O Sporting é, até ao momento, a melhor equipa em Portugal. A equipa de Ruben Amorim está a atravessar a melhor fase da época. Apresenta um futebol organizado, intenso, agressivo e confiante. Todos os jogadores sabem o que devem fazer dentro do relvado.

Todos têm sido importantes e Ruben Amorim tem sabido manter a motivação, compromisso e esforço dos jogadores do plantel verde e branco. Há um conjunto de jogadores que são titulares indiscutíveis e depois existe um grupo que vai alternando, mas que tem importância vital. Edwards e Trincão são os melhores exemplos de uma boa gestão. Jogam regularmente e vão, muitas vezes, alternando no onze sportinguista. Sendo dois jogadores que vivem de confiança, necessitam de se sentir confortáveis e importantes.

Nesta fase de maior densidade competitiva, Ruben Amorim está a retirar o resultado da gestão que tem vindo a fazer com estes dois atletas. Tanto Trincão como Edwards estão na sua melhor fase desde que estão no Sporting. Estes são dois exemplos, mas poderia dar muitos outros.

Numa equipa onde todos contam e onde a forma de jogar está identificada, padronizada e mecanizada, a boa gestão do grupo faz com que as exibições e resultados positivos apareçam. É verdade que Gyokeres é o jogador que ajudou a que tudo funcione ainda melhor, pelas características que apresenta e que encaixam na perfeição na forma de jogar que Ruben pretende e nas características dos seus colegas. A intensidade que mostra em todos os minutos de jogo é outro upgrade que trouxe para Portugal, e para a restante equipa, porque os bons exemplos acabam por ser seguidos por todos, tornando tudo muito mais fácil.

Para complementar tudo o que de bom é feito dentro do relvado, Ruben Amorim tem outra capacidade que torna o Sporting mais forte: a comunicação. Sabe comunicar, é frontal, não arranja desculpas, enfrenta as questões, vê os mesmos jogos que quem está de fora, aponta as lacunas da equipa e do que há a melhorar, define objetivos, não dramatiza, traz os seus jogadores à terra e, não menos importante, consegue criar empatia com os adeptos de forma natural e inteligente.

A ausência de Schmidt
Rui Costa e a sua administração têm vindo a fazer um forte investimento na equipa. Todos os mercados, inverno e verão, o Benfica investe de uma forma agressiva. Se na questão do equilíbrio desportivo/financeiro, fundamental na gestão diária de uma empresa que tem como objetivo obter resultados desportivos, as coisas parecem-me (algo) descontroladas, na vertente desportiva tudo tem sido feito para dar ao seu treinador todas as condições para atingir os objetivos.

Não me parece que existam muitas dúvidas de que plantel do Benfica é o que tem mais qualidade individual em Portugal. É precisamente por este motivo que o Benfica está em primeiro lugar no campeonato, em igualdade pontual com o Sporting, que tem menos um jogo. Ao longo da presente época tem sido visível que a equipa encarnada tem conseguido ultrapassar os obstáculos que vão surgindo, praticamente, devido à qualidade individual dos jogadores que resolvem jogos com a sua imaginação e criatividade.

Coletivamente, a equipa mantém os mesmos problemas desde o início da época. A transição defensiva continua por resolver de uma forma coordenada, embora existam jogadores que, por si, consigam camuflar esta questão: com Florentino a equipa melhora neste capítulo, assim como com Aursnes numa posição mais avançada, porque quando joga num corredor, sabe fechar por dentro, equilibrando a equipa constantemente. Ofensivamente, continuamos a ver um Benfica que vive da imaginação e desequilíbrio de Rafa ou Di María. Estamos em fevereiro e não se notam melhorias.

Roger Schmidt não só não consegue corrigir os problemas da transição defensiva, como também parece não perceber que a equipa com dois laterais de raiz é muito mais forte e imprevisível. Arthur Cabral, que está na sua melhor forma, será o mais beneficiado com a presença de jogadores que deem largura e profundidade numa equipa que, pela forma como o seu treinador a dispõe em campo, joga sistematicamente por dentro, usando muito poucas vezes as alas para desequilibrar.

No meio de tudo isto, o treinador encarnado ainda continua a surpreender-nos com opções estranhas, senão vejamos: o Benfica investiu €50 M em pontas de lança, ou seja, um investimento desta dimensão demonstra-nos a forma como a equipa pretende jogar. Contudo, de vez em quando, Roger Schmidt lembra-se de tentar jogar sem ponta de lança. Já o referi inúmeras vezes, o futebol não é Playstation!

Uma ideia no papel pode funcionar na perfeição, mas no campo tem de haver treino, mecanização e organização. Jogar com jogadores móveis na frente do ataque funciona a 100 por cento se eles souberem os movimentos que devem fazer para potenciar as suas capacidades.

Dou sempre o exemplo do Real Madrid. Ancelotti é treinador de um dos melhores clubes do mundo e joga sem ponta de lança. A diferença é que, em função dos jogadores e do planeamento que o Real Madrid efetuou, este sempre foi o plano A. O plano B passa pela entrada de Joselu durante os jogos. O que pretendo referir é que Carlo Ancelotti não se lembrou numa manhã de jogar desta forma!! Pelo contrário, trabalhou-a, preparou-a e desenvolveu-a tendo em conta as características dos jogadores que tem à disposição.

Outro problema que Roger Schmidt tem, e não pretende alterar, é a forma de comunicar. São inúmeras as vezes em que a sua análise aos jogos parece de um jogo que ninguém viu. Dá ideia que só ele vê coisas que não se passaram. Ao contrário de Ruben Amorim, não enfrenta os problemas, evita-os e tenta camuflá-los. Perante isto, ficamos sem perceber se ele os identifica ou se vê uma realidade paralela. O problema é que se isto acontece, a probabilidade de os corrigir é muito reduzida…

Luta a dois
A grande realidade é que iremos ter uma luta de duas equipas com formas de jogar bem diferentes. Se coletivamente o Sporting é a melhor equipa, e tem atualmente o melhor jogador do campeonato, Gyokeres, o Benfica individualmente é aquele que tem mais e melhores soluções. Por norma, numa prova de maratona, o coletivo mais forte acaba por se impor, mas no futebol e, sobretudo no campeonato português, no qual a diferença entre as equipas grandes e as restantes é abismal, tudo pode acontecer!

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