“Gyokeres é grande problema, mas não tenho idade para ficar admirado…”

Nunca foi próspera a vida do Boavista em Alvalade e os registos de 66 visitas ao covil leonino expressam esse desconforto, que também acompanhou anos poderosos da pantera, de grandes resultados nacionais, algumas conquistas e posições cimeiras, até à conquista de um campeonato nacional. Apenas por duas vezes, a equipa do Bessa passou em Alvalade, última delas em 1992/93, na Taça de Portugal e apenas no prolongamento. Ditou essa alegria um golo de Marlon Brandão, remontando a 1975/76 a única rasteira axadrezada ao Sporting na Liga, quando sob comando de José Maria Pedroto, a equipa portuense venceu em Lisboa por 1-0, golo de Salvador, terminando no 2º lugar. Pedro Barny, histórico nome do Boavista dos noventas, viveu vários desses confrontos e experimentou as emoções do outro lado da barricada, vestindo a camisola dos verde-e-brancos em 1992/93, acabando por integrar a equipa leonina que foi superada pela pantera na Taça de Portugal.

“Foi um jogo de Taça, um contexto completamente diferente, por ser jogo a eliminar, envolvendo estratégias diferentes e uma pressão distinta, deixando a equipa forasteira mais liberta. Foi um jogo marcante, vínhamos de goleada uns dias antes ao Boavista na Liga, por 4-0. Isso pode ter tido alguma influência no comportamento da equipa. Depois teve a nuance da vitória do Boavista ter ocorrido no prolongamento, senão era um empate. Foi pena ter estado do lado contrário nesse dia, uns dias antes estivera do lado certo”, recordou Pedro Barny, 219 jogos pelo Boavista e 35 pelo Sporting em 1992/93, ano de Bobby Robson. “Lembro festejos normais do Boavista, que acabava de eliminar um grande em sua casa e chegar à final da Taça. Cumprimentei toda a gente como deve ser, dei os parabéns a todos. Nada de estranho aconteceu a não a reação de adeptos, que nem os considero adeptos, da equipa que perdera. Senti na pele essa contestação, mas nada que não suceda tantas vezes.”

Sporting tem uma vantagem forte mas…
Olhando a um histórico tão desfavorável, diferente de investidas mais fortes da pantera nos domínios de FC Porto e Benfica, o antigo central não arrisca explicações. “Só posso pensar que se trata de jogar contra uma grande equipa e num ambiente difícil. Realmente não tenho grandes memórias, a melhor é mesmo o 4-0, quando jogava pelo Sporting. Há o histórico mas há sempre o dia em que as coisas modificam, o futebol tem muitos fatores que influenciam resultados e rendimento dos atletas”, atestou.

“É curioso, porque a jogar em casa, é o Boavista que tem um registo fortíssimo e o Sporting esteve muitos anos sem vencer no Bessa. Muito melhor do que contra o FC Porto e Benfica”, acrescentou Barny, esperando um Boavista competitivo em Alvalade sob a batuta de Ricardo Paiva, mesmo, que à partida, condenado a perder. “Há sempre uma estratégia que pode funcionar, depende da ideia do treinador, como analisa o rival, como retira partido das fragilidades e como anula pontos fortes. Neste caso há um grande problema chamado Gyokeres. Mas não tenho idade para ficar admirado com nada, tudo é possível. O Sporting vem de eliminatória europeia, pode haver algum desgaste, há aspetos que podem ser explorados mas, por norma, quem tem melhores jogadores ganha. Por muitas tentativas táticas e estratégicas dos treinadores em inverter esse quadro”, explicou Pedro Barny, “O Sporting tem uma vantagem forte, vive uma fase boa, lidera a Liga e está proibido de perder pontos. Mas tudo isso por vezes joga ao contrário. A lógica é o Sporting ganhar mas…”, observou.

Pedro Barny passa pelo Sporting em 1992/93 numa altura que Valentim Loureiro e Sousa Cintra acertam uma transferência, tinha o central acabado de renovar pelo Boavista. Volta envolvido como moeda de troca na mudança de Lemajic e Costinha para Alvalade, estavam os leões fragilizados na baliza. Ao ser-lhe apontado esse cenário, Barny decide-se sem hesitar, mesmo compreendendo hoje o peso da decisão. “Já muito falei disso, regresso a casa apesar de ter sido muito utilizado pelo Sporting, tudo ter corrido bem individualmente. Foram opções tomadas, nunca me atormentaram muito. Tomei a decisão perante um contexto e foi o que achei mais certo. Tive de viver com isso e com as consequências. A história dos jogadores é construída por estes momentos, fiquei contente por ter defendido um grande clube como o Sporting e o Boavista, o meu clube de criança. Os dirigentes tinham uma relação boa, era uma época muito especial”, precisou.

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